ROGERIO DISTEFANO - MAXBLOG

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DUAS VEZES MAIS

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  • PRESTEM ATENÇÃO aos filmes norte-americanos anteriores aos anos 1980. Desde o início dos anos 1940 os personagens esvaiam-se de fumar, era cigarro o filme inteiro. Lembro 'Uma aventura na Martinica, direção de Howard Hawks, 1944, o primeiro filme de Humphrey Bogart com Lauren Bacall, início do romance entre os dois: fumaradas sem fim, o cigarro com alusões sexuais quase explícitas, imaginei que por trás das câmeras ficaram chamuscados, cabelos e demais pelos queimados, lençóis encharcados pelos bombeiros. Bogart era fumante compulsivo, um câncer consumiu-o da garganta até o estômago e no fim da vida a própria mulher dizia que não aguentava o cheiro que exalava dele pela doença.
  • No cinema pós 1940 a maioria das cenas tinha consumo de cigarro em todos os ambientes, até em elevadores. Os personagens que por acaso não estivessem fumando sequer piscavam os olhos pela irritação da fumaça. Hoje, membro dos fumantes anônimos, imagino o cheiro que permanecia nos cabelos e roupas de todo mundo. Mas eram outros tempos, o cinema estava envolvido no merchandising da indústria do tabaco - assim como nas do leite, do bacon e do álcool, todos consumidos generosamente nos filmes. Merchandising institucional, pois sequer se mostrava a marca dos cigarros. Quem ia além do enredo maravilhava-se pelo espetáculo de elaboração de uma sociedade de consumo.
  • Décadas depois o cigarro foi amaldiçoado pela saúde pública e praticamente banido no cinema dos EUA. Ainda aparece nos filmes, nos lábios de delinquentes, desajustados, jovens revoltados. O bacon continua, deve ser porque a indústria farmacêutica tem mais força que as seguradoras com a venda de remédios para colesterol e pressão alta. De igual com o leite, mas em menor escala, porque não faz qualquer sentido, soa de mau gosto e péssimo paladar aquilo de crianças empurrarem o jantar com um copão de leite. Agora alguém lá em Boston, Massachussetts, descobriu que o álcool no cinema tem efeito aliciante sobre os jovens.
  • É o que relata o jornal virtual BMJ Open: os jovens que assistem filmes onde há consumo de álcool têm duas vezes mais chances de começar a beber. Daí a recomendação de tirar o álcool dos filmes. Banido o cigarro, que é menos nocivo que o álcool, social e individualmente, a ingestão de bebida permanece intocada nos enredos dos filmes. Bebe-se muito, briga-se nos bares, surge confusão em casa, os personagens bebem e dirigem os carros. O cinema, fiel à realidade, mostra o resultado, com atropelamentos, mortes, acidentes. Mas nada muda. Por que? Força da indústria? Difícil acreditar. Lembro que os EUA fizeram a Lei Seca, que proibiu a venda de bebidas alcoólicas.
  • Portanto existe substrato moral para condenar o álcool. A dúvida: o álcool não é ainda um problema de saúde pública como o cigarro? Ou o álcool cabe no espaço da mesma liberdade que deixa livre a compra e uso de armas, direito expressamente previsto na constituição, beber como direito de procurar a felicidade? Curioso que a mesma coisa acontece no cinema com o sexo, que nos tempos de Bogart/Bacall era sugerido e por isso vinha com carga intensa de sensualidade. Nessa época o sexo era sujo, o Código Hayes estabelecia regras sobre o que podia ser mostrado no cinema. E sexo não podia. Depois o cigarro ficou sujo e o sexo ficou limpo, não deixando margem à imaginação.
  • Hoje o sexo no cinema é praticamente explícito. Entre o sexo no cinema comercial (os feature films, como dizem nos EUA) e o pornô a diferença está na penetração, explícita neste, sugerida naquele. O que aconteceria ao filme sem a cena de sexo? Não maioria das vezes nada, a menos que seja filme pornô. Algumas vezes o filme perde seu principal atrativo: o que seria de Sharon Stone sem as cenas de sexo, em que seus esgares de boca constituem a quintessência do talento dramático?  Por que tratar de sexo aqui? Porque cigarro, sexo e álcool - mais as corrimaças de automóvel - são cenários incidentais recorrentes do cinema norte-americano. 
  • E a recomendação da BMJ Open de tirar as cenas de álcool apela para o politicamente correto cultuado pelos americanos. Foi assim com o cigarro. Mas suprimir o álcool não tira verossimilhança dos enredos sobre uma sociedade amante do álcool? Sim, o cinema pode aumentar em duas vezes as chances de cair no alcoolismo, pois o jovem tende a emular os personagens. Está aí mais um debate interessante, entre tantos que consomem a sociedade americana. E o sexo no cinema? Reduzidas as cenas, os jovens norte-americanos perderiam o risco de fazer duas vezes mais sexo? No Brasil já temos isso resolvido: fumar, beber e transar, é só começar. Com ou sem cinema, televisão ou BBB.
Última atualização em Qua, 22 de Fevereiro de 2012 18:43